O medo de viajar sozinha não é um medo diferente de qualquer outro que sentimos nessa vida. Porque antes de sermos pessoas, seres humanos, somos animais e como animais nossos instintos de sobrevivência falam mais alto.

O medo nada mais é do que um estado ocasionado pela consciência do perigo. Toda vez que nos sentimos ameaçados por qualquer coisa nosso corpo reage de forma imediata e nos deparamos instantaneamente com aquelas conhecidas sensações de ansiedade e alerta. Isso nada mais é do que o instinto da sobrevivência prevalecendo, um estado de alerta que força a mente e o corpo a se protegerem contra uma ameaça iminente.

Nós, como seres humanos que somos, diferentemente dos animais pensamos, ou seja, racionalizamos o medo. E para nos proteger do perigo além de estarmos naturalmente, instintivamente alertas, inventamos a prevenção. A prevenção nada mais é do que uma maneira de nos anteciparmos aos acontecimentos, às situações de perigo para que, antes mesmo delas ocorrerem, tenhamos a sensação de estarmos protegidos delas. Animais irracionais não fazem isso. Animais irracionais lidam com o perigo iminente. Já seres humanos, ao racionalizarem o medo podem criar muitas fantasias.

Prevenção do perigo e as fantasias

Ao lidar com a prevenção nós precisamos primeiro ou testar determinadas situações e comprovar o perigo, ou supor o que pode acontecer. É exatamente ao supor as situações, imaginar o que pode ou não acontecer, que fantasiamos as situações de perigo para então, criar maneiras de nos proteger delas ou nos prevenir para que elas nunca aconteçam. Em verdade, na esmagadora maioria das vezes, o medo racionalizado, esse que já ultrapassou nossos instintos, o medo que nos faz querer nos proteger do perigo a qualquer custo, o medo gerado pelas fantasias que criamos, é o medo mais nocivo e paralisante.

Obviamente que a prevenção nos dá uma chance maior de sobrevivência do que aos animais irracionais. Não é à toa que os seres humanos são dominantes no mundo. Porém, levar isso ao extremo pode resultar na perda de experiências de vida únicas, além da ignorância quanto a sensações e descobertas incríveis.

Como lidar com o medo originado pelas fantasias e a necessidade de se prevenir delas?

Fantasias são construções da nossa imaginação. E nossa imaginação é uma exímia criadora de realidades. A mente muitas vezes terá grande dificuldade em dividir o que é realidade e o que é fantasia, porque insistimos em alimentar nossas fantasias mesmo quando nunca vivemos nada parecido. Insistimos transformar suposições em realidade, fantasiando assim situações que não irão acontecer.

Como trabalhar isso?

Uma auto análise bastante crítica para tentar compreender de onde veem os nossos medos é a única maneira de conhece-los de fato para posteriormente vencê-los.

Onde foram geradas essas construções mentais que te impedem de ir adiante? Essa pergunta eu diria que seria útil para várias situações da vida e não somente para construir sua decisão em viajar sozinha. Mas pensando especificamente na viagem solo, eu diria que duas perguntas a se fazer são indispensáveis. Então vamos a elas.

As perguntas que você precisa se fazer

Identifique antes de qualquer coisa qual é o seu medo maior. Se pergunte: o que me impede de viajar sozinha?

A partir daí, da pergunta, e da formulação da resposta você estará se conhecendo e entendendo melhor qual a realidade que você inventou sobre o assunto, ou seja, as fantasias que você criou. Por exemplo. Muitas mulheres respondem que tem medo de viajar sozinhas porque acreditam que não ficarão bem com a própria companhia. É de extrema importância então compreender porque você acredita que não ficará bem consigo mesma. O que de tão terrível você enxerga em si mesma que poderia ser tão insuportável de lidar? Seja lá o que for que você imagina sobre si mesma, será mesmo real? Seja lá o que for que você saiba sobre si mesma, será que é mesmo algo tão aterrorizante que te paralise de maneira a não te permitir realizar seu desejo de cair no mundo?

A segunda pergunta e não menos importante: o que me impede de viajar sozinha é mais importante que a minha vontade de cair no mundo?  

Se sua resposta a essa pergunta for sim, seria interessante repensar suas escolhas de vida, buscar ajuda talvez, para conseguir superar seus medos. Mas se você responder não a esta pergunta eu diria que você deve começar já a preparar as suas malas. Porque se a resposta for não, significa que você mesma já sabe que nada pode ser mais importante do que seu sonho em cair no mundo. E daí para vencer seus medos é um passo. Porque a forma mais efetiva para vencer medos e desconstruir fantasias paralisantes é encarando as coisas de frente. Você certamente vai descobrir que a grande maioria das coisas que você imaginou que seriam um problema, não o são de fato. É sempre assim, acredite! Não sou apenas eu que digo isso. Na verdade, até hoje eu não conheci uma mulher que tenha se arrependido de fazer a primeira viagem sozinha por ter confirmado todos os seus medos. Sério! Se esta mulher existe, eu ainda não a conheci.

Por Luciane Leal